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Conheça Ferreira Filho, produtor que moldou o início do Forró Eletrônico

Ferreira Filho produziu algumas das principais bandas de Forró do Brasil e está até hoje com a Mastruz com Leite

Hugo Gualberto

Sexta, 08/02/19 às 20:19
Atualizado em Sábado, 09/02/19 às 17:27

A Mastruz com Leite pode não ser a banda que está em alta no momento, mas é inegável concordar que ela é a maior banda já criada no Forró. Em 2020 o grupo cearense, criado por Emanoel Gurgel, completa três décadas de existência e vive um bom momento após o lançamento de seu novo CD aqui no Sua Música. Em meio a tantos grupos da década de 90 que já não existem mais, a Mastruz se mantem firme e forte e dá claros sinais de que ainda tem muita história para contar. São muitos os personagens que fazem parte desta história grandiosa, mas um dos mais importantes, além do idealizador, foi e continua sendo Ferreira Filho, produtor e diretor musical da Somzoom.

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O Sua Música entrevistou Ferreira para falar sobre sua história na música e claro, na Mastruz, já que a vida da banda se confunde com a do profissional.

A música sempre foi algo presente na vida do nosso entrevistado de hoje. Ferreira Filho vem de uma família quase que por inteira formada por músicos e desde os oito anos já fazia parte de uma banda de sua cidade, aos 12 ingressou no conjunto musical de seu pai, tudo isso no interior do Ceará. Foi aos 17 anos que ele chegou a capital cearense, Fortaleza. Passou cinco anos e em 1982 foi convidado para a Black Banda de Quixadá, que fez bastante sucesso no interior até o momento em que começou a tocar bastante em Fortaleza. Foi nesse momento que ele conheceu Emanoel Gurgel, alguém que se transformou em um grande parceiro nas décadas seguintes.

"Foi aí que conhecemos o Emanoel Gurgel, na época um empresário bem sucedido no ramo de malhas que viu no sucesso que e na quantidade de pessoas que iam aos shows da banda a possibilidade de se criar um movimento local com artistas cearenses. Ele se juntou a nós e entrou no ramo de festas em parceria com a Black por dois anos, chegou ainda a produzir um LP para a banda e depois saiu pra montar sua própria estrutura. Ele já tinha a banda Aquarius, Trio Elétrico Arroz com Fumo e depois formou o Mastruz, quando sentiu que o mercado ia mudar para o Forró e gravou o primeiro LP da banda, pela Continental. Em 1992, ele teve a ideia de montar um estúdio de gravação, foi aí que começou minha história com a Somzoom, fui convidado a ser o diretor musical do grupo.", conta Ferreira Filho.

Ele também falou sobre a sua relação com Emanoel Gurgel: "O grande ponto da gente estar há tanto tempo trabalhando juntos, foi antes de qualquer coisa, a amizade que já existia entre nós dois. Foi fundamental para que eu viesse fazer parte da Somzoom. Era um cara confiável, muito otimista, sabia o que queria e aonde poderia chegar e me convidou em um momento que eu já estava querendo dar mais um salto na minha carreira como músico. Trabalhar em estúdio, produzir, compor e criar meus próprios arranjos era um sonho. Assim a gente foi trabalhando e tudo evoluindo com uma rapidez que já não existia feriado, dia ou noite, segunda-feira ou fim de semana, não tinha hora, as ideias fluiam e a gente concretizava. Até hoje é assim, logicamente mais tranquilo. Nossa relação é excelente, tenho muito a agradecer e sou muito feliz por fazer parte de tudo isso.".

Abaixo confira um pouco da Black Banda na época de Ferreira Filho

Antes de falar sobre produção musical e sobre a Mastruz, procuramos entender como está o mercado do Forró na visão de uma das mentes por traz da banda que deu início a história do Forró eletrônico. De acordo com Ferreira Filho, existe uma certa dificuldade para lançar novas músicas no estilo de bandas como a Mastruz, pois estilos vindo de fora do Nordeste já tem consumido o espaço.

"O que temos hoje é um projeto Forró das Antigas com as grandes marcas que ficaram e algumas casas de shows reduzidas fazendo o tipo forró pé-de-serra com grupos menores. Existe uma dificuldade na mídia para lançamento de uma música nova no estilo porque as programações estão tomadas por outros estilos que já vêm praticamente mastigados e estouradas das grandes capitais do eixo Sul, como era antigamente."

Ele também falou sobre essa enorme onda de cantores de bandas deixarem os grupos para iniciarem suas carreiras solo. Para ele, alguns artistas são líderes em suas bandas e o início de uma carreira solo faz sentido, mas outros deveriam entender que fazem parte de um projeto coletivo.

"Todo vocalista, aos olhos do público, é o líder da banda. Alguns até são, outros não entendem que fazem parte de um projeto. Eu analiso que cada caso seja um caso a ser estudado pelo cantor e pela banda, se aquele artista é fundamental no projeto por que deixa-lo sair? Vamos conversar, o que está acontecendo? É participação financeira? É o comodismo da banda?  Queira ou não, o dono da banda vai ter que fazer novo investimento, colocar o artista que vai vir ao julgamento dos fãs e mais uma pilha de reviravoltas. Por outro lado, o artista que quer fazer carreira solo tem que pensar que ele tem que estar a altura ou mais a frente da banda que ele está saindo. Tem dinheiro para isso? Têm espaços abertos para fazer shows? Tem que ter um outro empresário para investir? Tudo isso tem que ser pensado. Eu só desejo boa sorte e sucesso a quem luta pelos seus objetivos.".

E é claro que falando sobre o mercado forrozeiro nós também entramos em um outro assunto. O fato de muitas bandas dos anos 90 não existirem mais hoje em dia e não terem resistido as mudanças do tempo, sendo a Mastruz um caso à parte. Também conversamos sobre as reformulações constantes com entradas e saídas de vocalistas no grupo cearense.

"Nós sempre tivemos uma preocupação com o repertório do Mastruz, principalmente o Emanoel Gurgel. Na hora da audição das músicas ele sempre falava que nós tínhamos que gravar músicas que falem do cotidiano, temas que possam atingir todo tipo de pessoas, jovens, idosos, classes sociais diferentes, que sirva para todos eles. Com isso nós conseguimos criar uma discografia que é uma verdadeira biblioteca musical, não existe idade para gostar das músicas do Mastruz, elas sempre serão atuais. Quanto as reformulações no quadro da banda, deu-se naturalmente. Os artistas que foram saindo em busca do seu próprio caminho fizeram com que a banda fosse em busca de novos talentos, para isso foram criados os concursos que já viraram uma marca da empresa. Outro detalhe importante é que a juventude de hoje são os filhos da galera que consumiu Mastruz no auge.".

Quando pensamos em fazer a entrevista, uma pergunta teria que ser feita: Qual a dificuldade para nascerem mais bandas de Forró no mesmo estilo de grupos como Mastruz, Brucelose, Magníficos, Cavalo de Pau, Mel com Terra e tantas outras? Para ele, o trabalho de ressurgimento de algumas bandas que deixaram de existir ou para novas bandas surgirem é muito difícil, mas não impossível.

"O que se vê é que têm horas que o mercado cansa, que o que está tocando está ficando tão repetitivo e chato que as pessoas começam a procurar alternativas e acabam voltando um pouco no tempo enquanto não aparece alguma coisa nova. Com isso algumas bandas, sejam elas de forró, rock,  axé ou outros estilos, aproveitam para dar um giro e tentar renascer. É difícil, mas não impossível.".

Clique no botão abaixo para fazer o download do novo CD da Mastruz com Leite

Parte 1

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Parte 2

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Para quem não sabe, Ferreira Filho também é compositor de alguns sucessos do Forró, mas nós queríamos descobrir qual das faixas compostas por ele era a sua preferida e rapidamente ele pensou na música "Sem direção", do CD Meu alimento, de 2005. A música era interpretada por Herbert e Ana Amélia. Confira abaixo!

Além disso nós também perguntamos entre as dezenas de trabalhos com a Mastruz com Leite, qual foi o que ele mais se orgulhava de ter feito parte. De acordo com ele, o trabalho era sempre uma tortura, em um bom sentido, pois nada poderia dar errado. Ele explicou que os trabalhos que mais precisavam de cuidado eram homenagens a nomes como Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos e outros, pois teria que fazer de tudo para não "estragar" a obra dos mestres.

Ferreira apontou o "Mastruz canta os grandes sucessos do rei" como um dos que mais gostou de trabalhar e também de ouvir. Escute abaixo!

Produção musical

Após falar sobre todos esses assuntos, é claro que tínhamos que falar sobre produção musical com um dos nomes mais importantes da área no Forró. Principalmente para ter uma visão de alguém que está no meio desde a criação do Forró Eletrônico.

De acordo com Ferreira, o trabalho de antigamente não difere tanto do trabalho que é feito hoje, mas a principal mudança foi realmente a evolução tecnológica.

"Na minha opinião o que mudou para melhor foi o avanço tecnológico. Permitiu velocidade nos trabalhos pois o poder de edição é muito grande e a facilidade do intercâmbio entre músicos também melhorou. E para pior, acho que pela velocidade que o mercado exige já não se usa tanto critério na escolhas das músicas, não há preocupação em se eternizar uma obra. As ferramentas permitiram transformar alguns músicos e cantores menos talentosos em profissionais. Além disso a grande mídia me parece só estar preocupado com a audiência, independente do conteúdo.".

Ele ainda falou sobre a produção na época em que a Mastruz chegou ao seu auge.

Quando nós entrevistamos o baterista e produtor Rod Bala ele falou como era o processo de produção de Wesley Safadão. De acordo com ele, eles finalizavam o trabalho com cerca de 15 faixas e que pensavam em músicas que tivessem letras e melodias comerciais, que "pegassem" fácil. Ele definiu o trabalho de produção como o trabalho de lapidar uma pedra bruta e transformar em diamante. Fizemos a mesma pergunta para Ferreira Filho sobre os CDs da Mastruz.

"Primeiramente analisamos o estilo musical do artista ou da banda, principalmente as vozes. Qual tipo de música vai se encaixar, o mercado que se deseja atingir, qual o público alvo e qual o planejamento de mídia para esse trabalho. Depois disso, captar e filtrar composições para o repertório. Com 12 a 15 músicas já se pode fazer um bom CD, navegar por temas diferentes. No nosso caso, nós temos estúdio próprio, daí é só selecionar os músicos e entrar pra gravar."

Ele também falou sobre como era a produção na época em que Mastruz chegou ao seu auge. Para Ferreira Filho, quando se está fazendo sucesso, o trabalho fica muito mais fácil.

"Quando a Mastruz chegou ao topo, com todos os jornais, tvs e rádios de  portas abertas, não era diferente dos artistas que estão no topo hoje, o critério era menos exigente, até porque quando você está na moda, se achar graça, der um grito diferente ou fazer uma música com ta-ra-ra-ra não é difícil da galera absorver. O problema é quando você começa a dividir espaço e não pode errar mais na escolha da música, principalmente hoje com a velocidade da mídia.".

Vale lembrar que em 2020 a Mastruz com Leite completa 30 anos de história e em todo esse tempo Ferreira Filho esteve com a banda. Algumas novidades para comemorar o trigésimo aniversário já estão sendo planejadas, mas nenhuma delas pode ser divulgada ainda, já que estamos iniciando o ano.

Dicas para seguir carreira na produção musical, por Ferreira Filho

• É preciso ter uma noção de música, tocar pelo menos um instrumento e ter conhecimento de ritmos e harmonia. Pelo menos básico.

• Identificar para qual tendência musical o mercado e o público do entretenimento estão indo.

• Ser o elo entre o diretor artístico, que almeja o sucesso e rentabilidade financeira, e o artista, que quer colocar sua viagem pessoal e musical no projeto independente de resultado financeiro.

• Se puder, ter seu próprio estúdio.